A juventude é ao mesmo tempo o grupo com maior disposição para ação política e também o menos motivado para fazê-lo nos espaços convencionais
Pesquisas recentes revelaram traços significativos sobre o relacionamento dos jovens brasileiros com a "política". Em 2003, a pesquisa de opinião encomendada pelo Observatório da Educação da ONG Ação Educativa procurou conhecer a participação dos cidadãos brasileiros nas instâncias e mecanismos de elaboração, monitoramento e avaliação de políticas públicas. Chamou a atenção o fato da maioria dos entrevistados (56%) não desejar participar das práticas capazes de influenciar nas políticas públicas. Daqueles que desejam participar, destacaram-se os jovens mais escolarizados e as pessoas de maior renda. Um número expressivo de pessoas revelou desmotivação em participar por falta de informação (35%); neste grupo destacam-se os mais jovens, entre 16 e 24 anos, os menos escolarizados e os de menor renda.
Há consenso entre diferentes pesquisas que o aumento da idade provoca a diminuição do interesse e/ou disponibilidade para a participação. Neste sentido, o período de idade compreendido entre 15 e 20 anos é decisivo para o fortalecimento de práticas e princípios de participação democrática. Sem dúvida, as instituições e coletivos juvenis já mobilizados precisam estar atentos a este indício revelado pelas pesquisas e, assim, criar estratégias para que este período vital da juventude seja potencializado. Em conjunto com este campo potencial de participação entre os mais jovens há a evidência de que faltam informações que viabilizem a própria participação e também pessimismo frente às reais possibilidades de interferir em processos decisórios.
Na pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, do Instituto Cidadania, realizada em 2003, a maioria dos entrevistados (54%) concordou com a afirmação de que a política é algo muito importante, contra 11% que disseram que a política é nada importante. O reconhecimento da importância da política não significa, contudo, que os jovens não sejam críticos aos operadores da política institucional. Nesta pesquisa: 64% dos jovens entrevistados não confiavam em Deputados e Senadores do Congresso Nacional, 65% não confiavam nos partidos políticos, 61% não confiavam em vereadores da sua cidade, 55% não confiavam no Governo Federal. Não seria preciso muito esforço reconhecer que, considerando a sucessão de episódios de corrupção envolvendo "políticos" a partir do ano de 2005, a desconfiança nessas instituições e sujeitos tenderia a aumentar significativamente caso a pesquisa fosse atualizada.
A recente pesquisa Juventude Brasileira e Democracia (IBASE/POLIS, 2005) entrevistou jovens de 7 regiões metropolitanas e o Distrito Federal. Dos participantes, 28,1% faziam parte de algum tipo de grupo – esfera pública básica e voluntária, cuja existência evidencia certo potencial de participação associativa. A pesquisa confirmou o resultado de outros estudos que apontam que os grupos de orientação religiosa, esportiva e artística constituem o substrato do associativismo juvenil no Brasil de hoje. Na pesquisa, a participação político-partidária aparece como sendo pouco atrativa, em especial, para os jovens mais pobres e menos escolarizados. O envolvimento de jovens em movimentos de melhorias voltados ao bairro ou à cidade atingiu 18,5% das respostas.
Um dos problemas sentidos no debate sobre a participação juvenil se refere aos poucos estudos que possibilitem correlacionar o comportamento dos jovens ao conjunto da população. O senso comum que intui que haveria uma menor disposição participativa entre os jovens muitas vezes deixa de considerar que a "crise de envolvimento e participação" é generalizada na sociedade. A realização da mesma indagação para o conjunto da população seria extremamente interessante para se perceber se os jovens participam mais ou menos da vida social e comunitária se comparados com os adultos. A pesquisa IBASE/POLIS aponta que o número de jovens que já participaram em diferentes entidades e organizações é maior que o número de jovens que participa atualmente, o que caracteriza uma deserção participativa que pode estar apontando para a perda de interesse e confiabilidade nessas organizações.
As citadas investigações e tantas outras desvelam fenômenos sociais e políticos importantes e provocam a necessidade de novos estudos sobre a participação juvenil. Novos contextos, sentidos de mobilização e entraves materiais e simbólicos à participação nos cobram a ampliação e o aprofundamento das análises. Há a emergência de diferentes coletivos de participação que se orientam para o simbólico, o cultural, o corpóreo e as demandas do cotidiano que re-configuram o campo da participação que não se reduz aos espaços clássicos de participação juvenil, notadamente os partidos e os movimentos estudantis. Há também uma ampla maioria de jovens de todas as faixas de idade que se encontram às margens de qualquer tipo de envolvimento associativo ou processo de mobilização social.
O adensamento do campo das políticas públicas de juventude que presenciamos hoje é decorrência de induções de governos, de agências internacionais e da busca de respostas a processos sociais como a violência que envolve sobretudo os jovens, simultaneamente vítimas e vitimizadores. Contudo, há também a movimentação dos próprios atores jovens que inseriram suas demandas por direitos, notadamente no âmbito das cidades a partir da segunda metade dos anos 90. Exemplo disso é a luta pelo passe livre e a meia passagem para os estudantes nos ônibus e a visibilidade que a temática da periferia e da juventude negra ganhou a partir das vozes de diferentes atores. Os órgãos de juventude criados nos municípios, estados e governo federal vivem a tensão entre responder às pressões conservadoras pelo controle social do tempo juvenil e desenvolver políticas emancipatórias que contribuam para que os jovens sejam sujeitos de seus próprios tempos, espaços e projetos de vida.
Na história recente das políticas de juventude, os jovens têm sido convocados a participar na condição de assessores, conselheiros, representantes e clientela de projetos governamentais e sócio-educativos, em espaços públicos dominantemente controlados por lógicas institucionais de governos, organizações e adultos, preconcebidas e configuradas em margens de restritas autonomias. Os jovens são desafiados a inventar espaços públicos de maior liberdade para o estabelecimento de agendas políticas forjadas a partir de seus próprios interesses.
É preciso cuidar, contudo, para não associar mecanicamente as reivindicações dos jovens por direitos a uma busca desses por participação em órgãos relacionados com as políticas públicas. Os jovens querem satisfazer suas necessidades cotidianas e poder planejar o futuro mas não necessariamente participar de instâncias de decisão política tal como conselhos gestores e órgãos de governo. De modo geral, a maioria dos jovens percebe que não são muitas as oportunidades de participar em espaços de decisão e administração das políticas que interferem diretamente em suas vidas. É neste sentido que os jovens "mobilizados" em agremiações partidárias se apresentam mais fortalecidos e adaptados para participar dos espaços de decisão política cujas lógicas e práticas de realização não diferem em muito daquelas existentes em suas agremiações.
Os jovens que emergem hoje no cenário político através de diferentes organizações não partidárias (movimentos culturais, grupos religiosos ou esportivos, ONG’s) percebem sinais e experimentam situações que os levam a concluir que suas forças são limitadas na arena pública dos espaços institucionalizados. Neste sentido, é bastante animador perceber o surgimento de diferentes fóruns de participação não controlados por atores políticos tradicionais no âmbito das cidades e também no plano nacional. O convívio entre diferentes lógicas e práticas de participação tem sido saudável para todos os sujeitos participantes e para as próprias esferas de participação.
Os jovens brasileiros enfrentam o desafio de se reconhecer como atores políticos e criar participações que façam a diferença num quadro de ainda insuficiente mobilização popular e ação incipiente do Estado na resolução dos graves problemas que comprometem a própria condição de ser jovem no Brasil. Neste sentido, a participação que poderia fazer diferença e restabelecer a confiança nas instituições políticas no atual quadro de desigualdades seria aquela que abriria caminhos na agenda pública e apostaria na mobilização interpeladora da ineficiência do Estado, reivindicando políticas efetivas e democráticas, adequadas às necessidades dos jovens brasileiros.
Paulo Carrano é professor adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. Coordenador do Observatório Jovem do Rio de Janeiro/UFF, é membro do Conselho Nacional de Juventude.
Artigo publicado originalmente na Revista Onda Jovem, junho/2006, com o título: Participação e desencanto - A tradição em crise.