Em entrevista, ao Observatório jovem da UFF e Observatório da Juventude da UFMG, José Machado Pais fala sobre sua trajetória de pesquisa, a realidade dos jovens em Portugal e a importância da pesquisa para as políticas públicas
Observatório Jovem (UFF)/Obs. da Juventude (UFMG) 20.11.2004
O Observatório Jovem do Rio de Janeiro (UFF) e o Observatório da Juventude da UFMG entrevistaram o coordenador do Observatório Permanente da Juventude do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. O prof. José Machado Pais é Licenciado em Economia e Doutorado em Sociologia, é Investigador Principal do Instituto de Ciências da Universidade de Lisboa e Professor Convidado do ISCTE. Foi Professor visitante em várias Universidades européias e sul-americanas. É Vice-Presidente do Youth Directorate do Conselho da Europa e autor de diversos trabalhos publicados nos domínios da sociologia da juventude, da cultura e da vida cotidiana em revistas de Portugal e outros países. Dos livros publicados destacamos: Culturas Juvenis, Jovens Portugueses de Hoje (em colaboração); Ganchos, Tachos e Biscates: jovens, trabalho e futuro. No Brasil, publicou Vida Cotidiana: Enigmas e Revelações (Cortez Editora, 2003).
Observatórios Jovem e da Juventude (OJ’s):
Prof. José Machado Pais, o Sr. poderia nos contar quando e como se iniciou sua preocupação com as pesquisas sobre juventude? Qual trabalho destacaria em sua trajetória?
José Machado Pais (JMP):
Meu olhar sobre a juventude, tomando-a como objecto de interrogações começou antes mesmo de entrar na universidade. Ainda não era, pois, um cientista social mas já alimentava aquela curiosidade que Paulo Freire designava de espontânea. Curiosidade em relação ao mundo que nos rodeia. Eu tinha uma banda musical (Song’s Boys) que animava bailes de fim-de-semana em várias colectividades. No palco, enquanto dava meus acordes musicais, observava atentamente a forma como os rapazes abordavam as moças, como as convidavam para dançar, como as enlaçavam, como estas se insinuavam, como gradualmente se iam conquistando, das pequenas carícias ao primeiro beijo. Sem o saber, desenvolvia uma metodologia de observação à distância. Poderia bem ter escrito um livro sobre “jovens e sedução em bailes de salão”. Não o fiz. Mas mais tarde, já jovem sociólogo, escreveria um livrinho sobre “Rituais de galanteria nos meios burgueses do século XIX” e, em finais dos anos 80, comecei a interessar-me verdadeiramente sobre os universos juvenis, daí resultando a publicação do livro “Culturas Juvenis”.
OJ’s: Em linhas gerais, qual a realidade dos jovens em Portugal, hoje? Que desafios e dilemas vivenciam os jovens portugueses em suas transições para a vida adulta?
JMP: É muito heterogénea a realidade dos jovens portugueses. Mas há desafios e dilemas que lhes são comuns: nos domínios dos consumos, lazeres, sexualidade, educação, inserção profissional, participação social e política, direitos de cidadania e autonomia. Se me fosse pedido para destacar um destes domínios onde os jovens mais desafios e dilemas enfrentam apontaria a realidade do desemprego e do trabalho precário, sem dúvida uma das principais fontes de preocupação de muitos jovens portugueses. Ao longo do século passado (século XX) Portugal sempre foi um país com um desemprego de contenção: ou por efeito da emigração; ou por efeito de uma fixação forçada de um campesinato pobre à terra; ou por efeito da Guerra Colonial que ao mobilizar jovens para África os desmobilizava do mercado de trabalho; ou por efeito da submersão de um número indeterminado de desempregados na chamada economia subterrânea. Mas em economias com um surto de desenvolvimento repentino - como foi o caso da economia portuguesa nas últimas décadas - o mercado de trabalho mostra crescentes dificuldades em absorver toda a força de trabalho disponível. Porquê? Basicamente porque os ganhos de produtividade e competitividade implicam mais um investimento tecnológico (em grande parte dos casos estrangeiro) do que a criação de oportunidades de emprego. Os modelos de inserção profissional não deixam de obedecer a tradições nacionais. Há tradições assentes num modelo de aprendizagem (como acontece na Alemanha e no Reino Unido, com o Youth Training Scheme); há tradições baseadas num sistema escolar generalizado, de que França e Suécia são bons exemplos; finalmente, há tradições que comportam inserções precoces no mundo do trabalho de jovens pouco escolarizados, como é o caso de Portugal e, muito mais notoriamente, no Brasil. Neste caso, os baixos níveis de desemprego são assegurados por elevados níveis de subemprego. Do acabado de referir, podemos dizer que o futuro não sorri a todos os jovens do mesmo modo. Todos têm um futuro mas o futuro de uns é mais risonho do que o de outros. Muitos jovens alimentam razoáveis ilusões em relação ao futuro. Outros, contudo, refugiam-se na ilusão como estratégia de fuga à realidade.
OJ’s: No Brasil, é relativamente recente a preocupação com a formulação de políticas públicas dirigidas especialmente para a população juvenil. Ressentimo-nos de séries históricas de pesquisas e investigações territorialmente abrangentes que possam servir como guia seguro para a formulação de políticas públicas de âmbito nacional. Neste sentido, torna-se importante para nós conhecer a realidade da pesquisa sobre juventude européia. O Sr. poderia nos dizer algo sobre o “estado do conhecimento” das pesquisas sobre juventude na Europa de um modo geral e de Portugal especialmente? O que se pesquisa e quais linhas de investigações são privilegiadas?
JMP: Não há boas políticas públicas dirigidas à juventude sem um conhecimento da realidade à qual elas se dirigem. Os países que integram a Comunidade Europeia têm se beneficiados de avultados fundos financeiros para a realização de pesquisas sobre a realidade juvenil em variadíssimos domínios, nomeadamente no que concerne à problemática das transições para a vida adulta. No processo de preparação do “Livro Branco” da Comunidade Europeia a consulta aos representantes das organizações juvenis apontava cinco principais domínios que a acção política deveria privilegiar: a) participação; b) educação; c) emprego, formação profissional e inclusão social; d) bem-estar, autonomia individual e cultura; e) Valores, mobilidade e relações da Europa com outras culturas. Muitos das pesquisas européias têm incidido sobre estes domínios. O mesmo se pode dizer no caso português. O Observatório da Juventude Portuguesa, surgido em 1987, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com o apoio do Instituto Português da Juventude, tem privilegiado a realização de grandes inquéritos nacionais que abordam atitudes, expectativas, valores e condutas dos jovens portugueses, do mesmo modo que tem lançado monografias sobre temáticas tão diversificadas como os afectos e a sexualidade, o associativismo, os sonhos de realização profissional, as condutas de risco e outras mais. Deveria fazer ainda menção a uma extensa base de dados que reúne estatísticas oficiais da educação, emprego, formação profissional, justiça, demografia, cultura, etc. Temos séries de indicadores que abrangem um arco temporal de cerca de quatro décadas, o que nos permite ter uma clara noção da forma como esses indicadores evoluem temporalmente.
OJ’s: No Brasil, após a posse do Governo Lula, constitui-se uma atuante esfera pública de debates sobre a necessidade de que o governo federal elabore políticas públicas dirigidas aos jovens, notadamente para aqueles dos setores sociais mais vulneráveis. Em Portugal, qual a dimensão e o impacto das políticas públicas sobre os jovens?
JMP: Enquanto sociólogo da juventude meu mundo é o da pesquisa e não tenho tido interferência directa nas políticas públicas dirigidas aos jovens. Indirectamente sim, pois tenho consciência de que as pesquisas que fazemos são base para a formulação dessas políticas públicas. Por exemplo, o lançamento de um “cartão jovem” que oferece descontos aos jovens na aquisição de determinados produtos surgiu na seqüência de estudos que apontavam a relevância da socialização de consumo entre os jovens; a concessão de crédito com juros bonificados para a aquisição de casa própria por parte dos jovens resultou da constatação do desejo de muitos jovens terem casa própria, nomeadamente quando pensavam casar (quem casa quer casa, não é?); a aposta crescente na educação informal (por exemplo, no caso da educação sexual) é corolário da importância das sociabilidades juvenis, posta em evidência pela maioria dos estudos realizados.
OJ’s: Temos percebido, em todos os lugares, formas de ocupação dos espaços públicos pelos jovens, tais como os grupos culturais ou de voluntariado, que coincidem no presente com um progressivo desinteresse pelas formas clássicas de participação, como sindicatos ou partidos políticos. Esta também é uma tendência em Portugal? O senhor poderia nos dar, então, uma visão geral de como vem se dando a participação social da juventude portuguesa?
JMP: Num documento este mesmo ano publicado pelo Conselho da Europa sobre a participação política dos jovens europeus (What About Youth Political Participation?), o retrato que nos é dado é, de facto, o de uma juventude desencantada com as instituições e os modos tradicionais de participação política. A confiança nas instituições políticas está em decréscimo o que se reflecte num significativo abstencionismo eleitoral. Esta é também uma tendência que se verifica em Portugal. No entanto, os jovens não vivem alheados da vida política. O que me parece é que eles reivindicam uma real participação na vida social e política e não somente uma participação simbólica como muitas vezes lhe é sugerida.
OJ’s: Em sua opinião, quais seriam os maiores desafios em torno da participação da juventude para a construção de sociedades democráticas na contemporaneidade?
JMP: Justamente, é necessário que os jovens possam ter uma participação efectiva na construção da cidadania e da democracia. Um modelo de cidadania participada é-nos dado por um jogo de computador que tem entusiasmado muitos jovens, ao verificarem que detêm o poder de participar na criação da sua cidade. Refiro-me ao SimCity. O SimCity foi um dos primeiros jogos a explorar os fascinantes poderes da emergência bottom up. Os sistemas bottom up contrapõem-se aos modelos deterministas top down que são característicos dos enquadramentos impositivos. Tanto a aprendizagem quanto o actuar bottom up dão-se no mundo da vida quotidiana – usando “informação local” que pode levar a um “saber global”. Nesse jogo, o mundo bottom up está presente pelas possibilidades de auto-organização de comportamento emergente. Ao contrário das cidades planeadas de modo top down, a vitalidade das cidades vem dos que informalmente circulam no espaço público da cidade: a rua. A verdadeira magia da cidade vem de baixo e não dos arranha-céus onde a vida social parece estar enjaulada. Porque é que os jovens tomam a rua como palco de muitas das suas manifestações culturais, como o skater, o grafitti, o street basket, etc? Porque a rua é pelos jovens reivindicada como um palco de cultura participativa.